Desabafos

Just Another Day in the “Office”

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Toca o despertador. Sair da cama, tomar banho. Escolher a roupa e a maquilhagem perfeita. Pegar no carro e enfrentar mais uma vez o trânsito caótico de Lisboa. Fazer um zapping rápido pelas estações de rádio da moda e escolher a música que me faça enfrentar o dia. Chegar até ao local de mais uma entrevista de emprego.

“É desta que me contratam”, penso eu, olhando para todos os pormenores de mais uma sala de espera fria e cinzenta: o obstáculo final entre o sucesso e o fracasso.

“O seu perfil não é o indicado”, “Tem qualificações a mais” ou “Desculpe mas acabámos de preencher a vaga”, são algumas das muitas justificações que tenho ouvido desde que comecei esta procura incessante por um emprego na minha área.

Era de esperar que uma Licenciatura e um Mestrado em Comunicação Social, associado a um sem número de atividades curriculares como a Tuna da Faculdade e os Escuteiros; um sem número de cursos como os de Alemão ou Música e um ano em Erasmus na Bélgica facilitassem esta minha cruzada por um emprego na minha área. Mas não. Pelos vistos se tivesse ficado só pelo 12º ano já estaria a trabalhar como Caixa de Supermercado ou Telemarketeer. Quem me mandou a mim sonhar mais alto e com um curso universitário…

Chegar a casa. Enviar mais uns currículos. Vou finalmente espreitar aquele site britânico de empregos que uma das minhas amigas que já vive em Londres há uns meses me enviou e afirmou “Aqui encontras de certeza. E já sabes podes ficar no meu sofá até arranjares um sítio para viveres!”.

Esta incerteza, de decidir se vou ou fico. Se deixo novamente tudo para trás em busca de uma nova aventura ou se fico mais algum tempo e luto por uma vida estável no meu país, onde nasci, cresci e sonhei um dia ser alguém.

Mais dois novos e-mails. Num a marcação de mais uma entrevista de emprego. Noutro a marcação de mais um jantar de despedida de alguém que já desistiu de Portugal e vai recomeçar a vida lá fora. Respondo aos dois afirmativamente. Por hoje já chega de brincar à vida de recém-aluna universitária/desempregada.

Desligo o computador. Hoje decido acabar o dia de maneira diferente. Em vez de ver mais um ou dois episódios daquela série que agora está na moda, levanto-me da cadeira e vou até à estante dos discos de vinil. Pego mais uma vez no “Nuff Said” da Nina Simone, onde está a minha música preferida da cantora.

Hoje vou terminar o dia ao som dos clássicos que a minha avó costumava ouvir. Para o acompanhar, hoje escolho beber um pouco de Carolans, com duas pedras de gelo, como manda a tradição. Encosto-me para trás no sofá e saboreio o momento. Mesmo em dias mais cinzentos como este, “Life can be good”…

“I’ve got life/I’ve got my freedom/Ohhh/I’ve got life!”

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